OOP EXPERIENCES

20130307

spiderbunny tales | hut

Dos degraus ao guarda-roupa dá três passos a cambalear, e desce o último copo pela garganta abaixo. Só lhe apetece vomitar. Embora aconteça muitas vezes, a história não se repete. De um tijolo ao outro vai um varão, e pende um lenço que ele agarra e prende ao pescoço com um nó de gravata. Sai para atravessar o rio mas não chega a atravessar a rua. Vê o parto das luzes nos candeeiros, algumas nascem intermitentes. Na cabana à outra margem acende-se uma vela, ilumina-se a mão ao apagar do fósforo.

pencil count | 557

The size and the matter.



20130303

medicina popular | a técnica

Medidas para deitar aguardente no chá:

- um dedal
- uma luva
- uma meia alta
- uma ceroula
- um fato macaco

pocketing | e outros cortes com outras costuras

Creio que é daquelas questões que já nos massacrou a todos, durante meses a fio, numa ou outra fase da nossa vida. Que fazer àquele par de calças de ganga que adoramos mas deixou de nos servir?


20130226

online | o sagrado virtual

As pessoas que têm entes queridos sepultados num cemitério distante podem descobrir-se dispensadas de fazer uma grande deslocação para prestarem homenagem aos defuntos.

Estarão dispensadas, também, da oração privada e espiritual. Com o passar do tempo, serão dispensados ossos e carne nos ainda vivos e tudo será binário em uns e zeros no Sagrado Virtual.

O futuro trará a evolução do processo de morte e consequente procedimento funerário. Após terminada a vida, em vez de enterrados ou queimados, os finados entrarão num processador informático que transforma toda a matéria orgânica em sequências binárias, por meio de altas patentes tecnológicas detidas por grandes devoradores financeiros pelo bem comum.

Os dados electrónicos dos restos mortais de uma vida ambulante serão depois armazenados em nuvens cujo acesso é permitido através de login próprio, [im]pessoal e [in]transmissível. 

Haverá a modalidade para pagantes, que contemplará a visita virtual ao finado, a vela virtual e a oração virtual à escolha de entre uma míriade de opções [virtuais]. Poderão deixar-se mensagens de saudade, de pranto, de conforto e de condolências. Nesta modalidade, a sequência binária original do defunto permanecerá armazenada enquanto durar o pagamento.

Para os menos afortunados, haverá a versão gratuita que contemplará todas a funcionalidades da versão paga, mas apenas até à missa do sétimo dia [ou durante uma semana, dependendo do que acontecer primeiro]. A partir desta data, e na falta de pagamento, os dados electrónicos serão eliminados transformando o finado numa espécie de não-pessoa para a eternidade.

A alucinante arritmia do planeta agradece. A humanidade esquece. Assim evoluirá a vida para além das grutas e a morte, sem elas, se finará.

A orgânica da vida dispensa-se; a das máquinas, Deus nos livre!

1984 | the future is nigh

There will be no curiosity, no enjoyment of the process of life. All competing pleasures will be destroyed. But always - do not forget this Winston - always there will be the intoxication of power, constantly increasing and constantly growing subtler. Always, at every moment, there will be the thrill of victory, the sensation of trampling on an enemy who is helpless. If you want a picture of the future, imagine a boot stamping on a human face - forever.

[Part III, Chapter III, Nineteen Eighty-four - George Orwell]

esquecimento | e outras saúdes mentais

O perfil que eu tinha no facebook e ao qual raramente dava uso, foi ontem eliminado. Finalmente, fiz o que já andava mortinho por fazer há meses. And I'm feeling good. 

Aproveitando o tema, transcrevo parte de um comentário deixado por um anónimo num site de notícias online [feel free to use it as food for thought]:
O telemóvel faz desaparecer a dimensão espaço. A net faz desaparecer a dimensão tempo. O que será da saúde mental num futuro próximo, onde tudo ficar escrito, fotografado e publicado e for impossível esquecer?

dogma | é melhor guardar antes que oscile

Aceitam-se esclarecimentos.

dogma | tudo o que é pequeno tem a sua graça

Aceitam-se desmistificações.

sapiências | em hora de expediente

Eu quando tiver oitenta anos já não preciso foder. Já não tenho tesão. Vou precisar de uma reforma de cinco mil euros para quê? Para ir às putas? Para isso preciso de vinte euros de vez em quando.

spiderbunny tales | shore

Resulta por vezes num grande escape o minúsculo mamilo acarinhado pelo dedo que percorre e se demora, até que adormece no veludo da pele à beira-mar. A branca espuma em linha de margem desmistifica a hesitação e reproduz-se mais acima, em contra-mão.

20130219

gare do oriente | a referência

Já lá me orientei algumas vezes.......