É-lhe servido para jantar a rocha que anda cravada no seu peito há muito tempo. Nela se refugia e se esconde, tapando os olhos com a mão quando a luz inicia a batalha contra a escuridão.
No prato, para além da rocha, há um punhado de salada com umas folhas de alface, umas raspas de cenoura e uma tiras de repolho (ou couve branca, lombarda... o raio!) e uma batata assada.
A mesa comprida mas completamente vazia de adereços espreguiça-se até à fenda por onde o ar se exercita ao entrar sendo rapidamente consumido e raramente renovado.
O cheiro a cerejas adocica gentilmente o aparador onde também se ergue uma vela que derrama cera enquanto se esvai numa chama desmaiada.
Não há vinho na adega e talvez também não haja adega nenhuma. Ele levanta-se para averiguar. Caminha com o tacto da palma das mãos a reconhecerem as paredes e quando por fim sente a maçaneta de uma porta, volta atrás para pegar na vela e ao virar-se novamente, a desmaiada chama morre finalmente.
Ele suspira um foda-se com uma falta de entusiasmo demasiado grande para tão enfático palavrão. Às cegas consegue reencontrar o seu lugar à mesa, confunde a batata com a rocha que lhe foi servida e fica com a ligeira sensação de ter partido um dente.
A única janela que existe está arrematadamente escondida por detrás de caixotes cujos conteúdos são melhor deixados por desvendar.
20081028
20081023
| am so over you |||
2209651**
calling...
-Quem será? _pergunto eu, baixinho. não está ninguém em casa, por isso não vale a pena perguntar alto.
Atendo.
-Boa tarde, fala bla bla bla, da bla bla cabo bla bla. Tenho o prazer de estar a falar com o Sr. (o meu nome aqui)?
-Sim. _obviamente que ele estaria com muito prazer de falar comigo, apesar de eu estar sem pachorrinha nenhuma para falar com ele.
-Posso apresentar-lhe as novas promoções bla bla bla bla bla bla bla bla? Bla bla?
-Sim. _foda-sss! SIM? mas que parvalhão é que responde sim a uma pergunta dessas?
-Mas antes deixe-me só confirmar aqui uma coisa consigo. Ainda mora na Alameda Vieira da Silva número
Eu tive que me impôr!!! Tive que cortar a conversa e mostrar quem é que mandava ali. Pareceu-me que não me iria fazer muito bem ouvir alguém pronunciar a minha anterior morada... Não perguntem. Mas não quis ouvir.
-Não. _eu sou craque nas respostas monossilábicas_ De momento estou a viver nos Açores. _golpe de mestre. Era impossível que tivessem alguma promoção para residentes nos Açores. A nossa conversa tinha chegado ao fim, at last.
-Aahhh... Agora está a morar nos Açores?!...
-
_a minha resposta foi o silêncio. Aquele senhor já se devia ter apercebido que nós os dois ... não era coisa pra durar. Não ia resultar.
-Então sendo assim, boa tarde! Vou já actualizar os seus dados.
_if you must!
calling...
-Quem será? _pergunto eu, baixinho. não está ninguém em casa, por isso não vale a pena perguntar alto.
Atendo.
-Boa tarde, fala bla bla bla, da bla bla cabo bla bla. Tenho o prazer de estar a falar com o Sr. (o meu nome aqui)?
-Sim. _obviamente que ele estaria com muito prazer de falar comigo, apesar de eu estar sem pachorrinha nenhuma para falar com ele.
-Posso apresentar-lhe as novas promoções bla bla bla bla bla bla bla bla? Bla bla?
-Sim. _foda-sss! SIM? mas que parvalhão é que responde sim a uma pergunta dessas?
-Mas antes deixe-me só confirmar aqui uma coisa consigo. Ainda mora na Alameda Vieira da Silva número
Eu tive que me impôr!!! Tive que cortar a conversa e mostrar quem é que mandava ali. Pareceu-me que não me iria fazer muito bem ouvir alguém pronunciar a minha anterior morada... Não perguntem. Mas não quis ouvir.
-Não. _eu sou craque nas respostas monossilábicas_ De momento estou a viver nos Açores. _golpe de mestre. Era impossível que tivessem alguma promoção para residentes nos Açores. A nossa conversa tinha chegado ao fim, at last.
-Aahhh... Agora está a morar nos Açores?!...
-
_a minha resposta foi o silêncio. Aquele senhor já se devia ter apercebido que nós os dois ... não era coisa pra durar. Não ia resultar.
-Então sendo assim, boa tarde! Vou já actualizar os seus dados.
_if you must!
20081022
know|e west boy
Pois o Tricky está com esse novo álbum. Muito bom.
Quer dizer... há algumas músicas que não me dizem nada. Mas outras que são altamente. Como essa que vos deixo: Enjoy!!
Quer dizer... há algumas músicas que não me dizem nada. Mas outras que são altamente. Como essa que vos deixo: Enjoy!!
veronika
cicap||ast
IT ROCKS.
IT RULES.
Não é que a porrinha do creme/pomada/tsf é eficaz pra caralho?
Apliquei antes de ir deitar. Na manhã seguinte a vermelhidão tinha passado em cerca de 96%, a irritação em cerca de 98%. Tudo isso após uma aplicação do produto. Uma apenas.
Nunca antes dois euros e meio me deixaram tão agradado.
IT RULES.
Não é que a porrinha do creme/pomada/tsf é eficaz pra caralho?
Apliquei antes de ir deitar. Na manhã seguinte a vermelhidão tinha passado em cerca de 96%, a irritação em cerca de 98%. Tudo isso após uma aplicação do produto. Uma apenas.
Nunca antes dois euros e meio me deixaram tão agradado.
20081020
cicap|ast
Escrevam o que vos vou dizer (ou melhor... digam o que vos vou escrever): Isso ainda vai dar que falar!
De há uns dias para cá, a minha zona queixo-pescoçal tem andado um tanto irritada. Já lhe aconselhei a juntar-se ao grupo dos Irritados Anónimos, mas não há maneira... e é pelo encravado, zona vermelha à volta, zona sensível à volta da zona vermelha à volta do pelo encravado, é unhas e dedos a roçar na zona toda a ver se a comichão auto-induzida dá conta do recado, e nada!
Hoje, por fim, achei de também eu ficar irritado. Não tive meias medidas... Sim! Fi-lo!
Eu fui à farmácia!
/Com licença, com licença... E, apontando com o dedo para a zona vermelha, sigo em frente acreditando piamente ter prioridade de atendimento. Pelo encravado!/
- Boa noite. Tenho essa zona aqui irritada... pelo encravado /silêncio longamente curto para criar ambiente propício a uma exclamação de incredulidade.../ O que têm para isso?
Depois de me trazerem dois pacotinhos longos, explicaram-me que ambos os produtos fariam o seu papel na melhor das suas capacidades mas que esse (cicaplast) talvez por ser dois euros e meio mais caro seria o melhor por causa disso, daquilo, e daqueloutro. Em suma, por causa de ser dois euros e meio mais caro.
Trouxe-o. Esse pelinho encravado ainda vai arrepender-se de um dia se ter dobrado na direcção errada. Paneleiro!!
Chego a casa. Nas calmas. Eu sei que a batalha está ganha.
Mas pelo sim pelo não vou a ler o papelinho barulhento que está todo fininhamente dobrado dentro do pacotinho longo que traz a bisnaga do CICAPLAST /braços estendidos para cima, cabeça inclinada ligeiramente na mesma direcção e gargalhada sinistra de vitória antecipada/.
"Cicaplast ajuda a acelerar o processo natural de reparação, estimulando a reconstrução da barreira cutânea e protegendo a pele graças a um efeito escudo protector."*
E depois ainda mais uns quantos parágrafos com letra de tamanho ridiculamente minúsculo, a falar de todas as qualidades do produto, usando 75% de todos os termos do vocabulário português que apenas 0,9% da população falante do idioma pronuncia mais do que uma vez na vida.
Até chegar ao seguinte:
"A tolerância de Cicaplast foi igualmente testada na pele dos lábios, podendo também ser utilizado para essa indicação. A sua fórmula resistente à água é particularmente interessante nesse caso."**
Particularmente interessante.
Particularmente interessante.
Como assim? Será que a fórmula faz uma festa nos lábios e convida toda a gente? Ou será que se pôe a contar histórias fascinantes sobre o seu passado até agora desconhecido?...
Cá pra mim... essa fórmula não é nem mais nem menos do que o TSF***!!!
________________________________
* in Papelinho barulhento que está todo fininhamente dobrado dentro do pacotinho longo que traz a bisnaga do CICAPLAST
** idem
*** TSF: Terceiro Segredo de Fátima (N. do E.)
20081017
|et_the_madness_begin
THE IMP
O Senhor das Trevas mais eeevil de todos os tempos.
Atentem na gargalhada.
Diabólica.
Que
mê
do!
O Senhor das Trevas mais eeevil de todos os tempos.
Atentem na gargalhada.
Diabólica.
Que
mê
do!
20081015
a|one>to>go>high
Hoje, fui acusado de ser um falso! Porque para além de andar ultimamente tão ausente, nem mesmo hoje - que foi dia de minha folga - disse nada a ninguém. Ok Ok... dou a mão à palmatória. Não tenho, de facto, estado muito presente, nem mesmo quando estou presente.
O vídeo seguinte, enquanto vídeo, é do mais desinteressante que possa haver na redondeza toda dessa Terra. Terão a oportunidade de o confirmar já a seguir. Mas a experiência musical, na sua extração de imagem, tem constituído, para mim, ultimamente, uma proximidade assustadoramente grande da forma como me tenho vindo sentir de há algum tempo para cá.
Caso tenham levado a minha palavra como certa quando vos disse que o vídeo era desinteressante e, por tal, clicaram no play > prosseguindo, de imediato, com a leitura desse registo, agradeço humildemente a atenção, mas receio não ter mais nada de jeito pra dizer. Podem, no entanto, ir lendo a letra da música.
I never meant to go
I never meant to fall
but I'm only gone
I never meant to go
I'm only gone inside
my own
Some day I'll wake you
Some times I'll wait for myself
Some day I'll hold you through
Tonight I'm alone to go high
Tonight I'm alone to go high
Tonight I'm alone to go
In state of confusion
you made an illusion
State of confusion you made an illusion
It is exciting to be away
Feeling you all inside of me
I'm standing here but I'm really gone
Some day I'll wake you
Some times I'll wait for myself
Some day I'll hold you through
Tonight I'm alone to go high
Tonight I'm alone to go high
Tonight I'm alone to go
In state of confusion
you made an illusion
State of confusion you made an illusion
Some times I'll wait for myself
Some day I'll hold you through
Tonight I'm alone to go high
Tonight I'm alone to go high
Tonight I'm alone to go
In state of confusion
you made an illusion
State of confusion you made an illusion
You see me as I go
You've been precious to me
I've been blessed in the way
But Now I'm falling
I'm inside
Aos que não acreditaram na minha palavra e optaram por ficar especados a olhar pró desinteressantismo do vídeo e só agora é que acordaram prá vida...
DAMN YOU ALL!!!
20081002
4000 frames|
HOW IT ENDS_BY_DEVOTCHKA
Há momentos em que paramos... e a vida corre rápida e inexorável, enquanto nos deixamos quedar, prostrados, perante sensações estranhas, inquietas. Há momentos em que tudo pára. Menos a vida de quem viu tudo parar. Essa corre, veloz... parece que se apressa a chegar a qualquer sítio.
Há um mês atrás, parou-me a vida. Por instantes tudo ficou surdo, tudo ficou afónico, tudo ficou cego. Parou tudo. Parecia que tinha sido atingido por uma força tal que me congelava, que me impedia o pensamento, o sentir, o querer e o viver.
Por muitas mensagens que leia, por muitas vozes que me digam, por muitos gestos que me transmitam que tu permanecerás sempre, o que eu sei, Palhacito, é que te não tenho mais. Que não estás mais. Que não ouvirei jamais, novamente, a voz da tua realidade viva. O que eu sinto, Palhacito, é uma perda devastadora, que nem em quatro mil palavras a poderia descrever, nem em quatro mil frames a poderia transmitir. O que eu sei, Palhacito, é que te perdi.
Não me angustia a falta que me fazes agora, nesse instante. Angustia-me a falta que tens feito desde há um mês para cá, e a falta que sempre farás, eternamente... No meu hoje, no meu amanhã, no meu depois de amanhã, e no meu sempre e sempre e sempre.
A vida vai passando, super sónica... deixando um ruído como rasto, uma confusão de momentos que tão depressa nascem como se fazem passado. Em meios segundos, tanta coisa acontece, tanta coisa se fez, se disse, se sentiu, se viu e se ignorou... Apenas a tua falta é lenta. Apenas a tua ausência permanece, apenas o que eu sei se mantém... Que te perdi. Que não estás mais.
No coração sempre te tive, sempre te tive na alma... Mesmo quando, há 4000 frames atrás, partilhávamos um mesmo espaço físico. Não foi agora que te ganhei na alma... já te tinha ganho há muito tempo. Nada alterou isso. O que alterou foi que partiste. Que o abraço deixou de ser possível, o sentir-te perto, fisicamente perto, deixou de ser real.
Não voltaste não ao teu estado de luz, não foste não habitar na metade da nossa estrela, não estás não a ver-nos através de uma janelinha no firmamento... Por vezes, Palhacito... não acredito em nada disso. Por vezes o que sinto e sei, é que morreste. Que te não tenho mais.
E a minha vida vai parando e voltando a correr... e ora pára de novo... e ora corre mais um pouco... Mas em qualquer desses estados de movimento/inércia da minha vida, as quatro mil frames percorrem - ininterruptamente - tudo o que era teu e meu, tudo o que era nosso... tudo o que tu valias, e valerás sempre, para mim.
20080918
|e|ternamente
Pela mão te trago.
Em cada dedo teu poiso um dedo meu.
No teu sorriso recordado há o segredo de um sossego...
De te saber querido, vivido,
E pertencido.
Em cada tempestade, um porto de abrigo,
Em cada fim de viagem, uma âncora.
Fomos assim...
Uma mão viajando na outra.
Somos assim...
Ternamente eternos.
20080917
damasco_|do|_japão
AletriaPãozinhos frescos trazidos da Torre das Flores
Rúcula
Rancho
Dióspiros
Doce de capucho trazido dos Açores (barrado no pãozinho da Torre das Flores)
Cada vez se torna mais real pensar nas coisas de que gostavas, e que partilhaste comigo. Pensava que quando essa realidade das coisas nascesse e se tornasse evidente, a dor de te não ter mais tornar-se-ia mais pesada, mais dilacerante. Afinal de contas… Nem sempre é assim.
Há momentos em que tudo se veste de uma fatalidade desesperante e parece que cada lugar perdeu as arestas, cada rajada de ar perdeu a velocidade, que cada olhar se tornou vago, cego e alheio, que cada momento se tornou insólito por estar ausente de ti. Há instantes em que compreender a tua ausência se transforma numa tonelada de pesos caídos de uma só vez.
Mas depois de te aperceber ausente, ido, devolvido ao teu estado natural de luz… Depois de aceitar – por imposição da realidade dos dias que continuam a desfilar vida fora – depois disso… Parece que há um estado de calma. É tão estranho pensar em ti. É tão estranho.
Dizias muitas vezes que tudo na vida tem um sentido, por mais que em determinadas alturas nós não conseguíssemos compreender esse sentido. No final, haveria um momento em que nos aperceberíamos do quanto tudo o que passou acabou por possibilitar tudo o que veio a seguir. Por enquanto, ainda não me sinto capaz de te dar razão. Mesmo nos momentos de maior calma que vou tendo, continuo sem conseguir encontrar razões que validem a tua partida. Nada faz sentido ainda.
Mesmo que todas as coisas acabassem agora, continuo a achar que tu não deverias acabar; que nós teríamos ainda alguns comentários a fazer um ao outro sobre o facto de tudo ter acabado… Não sei explicar. Foste embora cedo demais, muito antes de eu estar preparado para ter dizer adeus.
Existem tantas coisas que ainda quero conseguir na vida… Tantas concretizações que entretanto deixaram de fazer muito sentido porque sei que, se acontecerem, não as poderei partilhar contigo quando acontecerem. Vai faltar sempre alguma coisa na minha vida. Vais faltar sempre.
Quando te vi pela última vez, já sabia que a tua doença te iria ser fatal. Mas não pude falar disso contigo. Não queríamos dar-te uma informação angustiante assim. É injusto. É cruel. Sempre te disse o quão importante eras para mim, o quão especial te sentia, o quanto te adorava. Mas nunca te pude falar do tamanho da dor que era saber que te estava a perder. Não pude partilhar isso contigo.
Não me foi possível abraçar-te uma última vez, em que te fizesse ter consciência de que naquele abraço, metade de mim te era entregue para a poderes levar contigo e teres sempre contigo o teu Anãozinho para te proteger, para te dar todas as palavras, todos os abraços, todos os portos seguros de que tu tantas vezes necessitavas.
Como é que é possível teres partido assim, eu te ter perdido assim? O que é que pode haver de tão importante nesse mundo para justificar a necessidade desse meu adeus a ti, de forma tão eterna?

20080911
20080910
palhac|to
Desde há muitos anos que me habituei a escrever sobre o que sinto para poder, desta forma, compreender melhor aquilo que sinto. Dizer dos meus sentimentos, em palavras derramadas no papel – ou ecrã de computador – nunca foi tarefa difícil e sempre funcionou como um medicamento para as minhas dores. Mesmo porque sempre que escrevia, tratava dos meus sentimentos em privado e permitia-me desbravar todo o terreno ao encontro de um eu cada vez mais real e consciente.
Mas escrever sobre ti, agora, tem sido algo que não me sai naturalmente. Sinto uma grande necessidade de o fazer mas quando começo, parece que todas as palavras nascem mudas, distantes, alheias, falsas. Nenhuma delas carrega a massa total da dor que contam. E sinto também que ao escrever sobre ti, não o faço em privado. Sinto que elas devem ser dirigidas não apenas ao recorte do papel mas a tanta gente, a tantas pessoas, a tantos pedaços teus que ficaram cá conosco. E, ao pensar em todas elas, estou inevitavelmente a pensar em ti. Enquanto escrevo, estás aqui comigo e é isso que me faz confusão. Como habituar-me à ideia de escrever para ti, tendo-te aqui comigo, mas falar apenas de uma mágoa provocada pela tua ausência?
Como compreender a dor de te perder?
Parece que ainda no outro dia nos ganhámos um ao outro. Foi o que nos saiu na rifa. E não podia ter saído nada mais valioso. Eu estava a viver em França naquela altura. Foi em Agosto de 2003. Logo no início do mês. Lembro-me que foi um mês de muito calor por toda a Europa, e no Vale do Indre, onde eu estava, faziam 40 graus à sombra. Eu estava doente. Apanhei um virús qualquer que em deixou de cama por uns dias. Sentia frio, naqueles dias quentes, e passava horas debaixo do cobertor a tremer de frio. Lembro-me que a indisposição começava sempre à mesma hora do dia… Por volta das quatro da tarde começava a doer-me a cabeça, ficava tonto, meia hora depois começava a ter frio, ia para a cama enrolar-me nos cobertores e ficava assim. Quase não jantava e só na manhã seguinte é que voltava a sentir-me melhor. E foi nesses bocados em que me sentia melhor que acabei por conhecer virtualmente um novo amigo. Nessa altura iniciámos a nossa troca de emails a falar sobre nós, quem éramos, do que gostávamos, o que queríamos da vida. Passei a ligar-te de vez em quando. E conversávamos pouquinho. As chamadas internacionais eram caras. Mas a maior parte do que íamos descobrindo um acerca do outro foi descoberto através de palavras escritas, por email.
E nós deixámos de saber estar sem que estivéssemos em regular e frequente contacto um com o outro. Entendíamo-nos tão bem! Dizias tantas vezes que só eu é que te compreendia em alguns aspectos. Sim, Palhacito, compreendia-te muito. A tua amizade era-me muito querida e eu encontrava no teu mundo interior cada vez mais razões para te conservar como meu melhor amigo. Rapidamente te tornaste naquele meu grande, especial, adorado e querido amigo. O meu amigalhacito… às vezes pedias para te chamar assim. Gostavas muito quando eu o fazia.
No final daquele ano decidi regressar a Portugal e fui viver para os Açores durante um ano e foi nesse ano, 2004, que acabámos por nos conhecer pessoalmente. Em Agosto. Naquele mês fazia um ano que nos tínhamos conhecido. E desde que voltei aos Açores que nós criámos um hábito que ficou muito enraizado entre nós: o de falarmos ao telefone todos os dias, todos, e várias vezes ao dia. Daquela altura, eu não me recordo de um único dia em que nós não tivéssemos falado um com o outro pelo menos duas ou três vezes.
Falávamos sobre tudo, falávamos sobre nada… de coisas importantes, de coisas desinteressantes, de coisas banais, de coisas feias, de coisas bonitas, de pessoas, lugares, de tempos passados, de sonhos realizados e de outros por realizar. Deixávamo-nos, assim, entrar no mundo um do outro tão completamente, que acabou por não haver nada de um de nós, que não fosse por direito do outro também.
Fui a Lisboa em Agosto e foi então que a nossa amizade ganhou o seu “certificado oficial” de algo com valor imenso. Não me esquecerei nunca do café que tomámos no Central Park na primeira vez que estivemos a poucos metros um do outro. Foi como se aquele momento tivesse validado e confirmado a nossa grande cumplicidade. Nem do nosso jantar na Quinta do Tabaco em que estávamos tão felizes por finalmente estarmos a partilhar momentos nossos. Nem do abraço que me deste à despedida no aeroporto quando regressei a Ponta Delgada. Em todos os teus abraços – incluindo esse – senti que me entregavas por inteiro uma amizade dedicada, sentida, e muito acarinhada.
Em Novembro desse ano vieste tu aos Açores, conhecer uma outra preciosidade minha, a ilha de São Miguel. O valor daqueles dias que passaste cá comigo é incalculável. Não há como verdadeiramente conhecer a felicidade que era poder mostrar a minha ilha ao meu Palhacito. Vivemos momentos tão felizes, tão cúmplices, tão despreocupados. Rimos tanto… falaste tanto mal da chuva que caía quase todos os dias (é Novembro!!!! – dizia-te eu. Estavas à espera de quê?) Lembro-me tão bem de como tantas vezes nós implicávamos um com o outro só mesmo pela felicidade que sentíamos ao fazê-lo. Nunca nos chateámos um com o outro. Nunca nos zangámos um com o outro. Tínhamos um carinho tão grande, e especial, um pelo outro. Permitíamos tanto um ao outro…
No ano seguinte, em Março, fui viver para Lisboa. Arrendámos um apartamento em Linda-a-Velha e os meses seguintes foram sem dúvida dos mais felizes de toda a minha vida. Eu sentia que estava onde deveria estar. Partilhava casa contigo, estava de novo a viver na proximidade de um grande centro urbano, e sentia que a vida corria tão bem, estava tudo tão certo, tão afinado e tão iluminado na minha vida.
“Que outra cidade, Levantada sobre o mar, à beira-rio acabou por se elevar, Entre dois braços de água, Um de sal, outro de nada…” – Adorávamos essa música dos Madredeus. Estávamos os dois a realizar um sonho nosso: viver em Lisboa. E esse sonho que nos era tão desejado, realizámo-lo juntos. Vivemos a felicidade um do outro enquanto ela acontecia. Momentos assim, partes de vida assim, acontecem apenas com pessoas muito especiais e que nos são muito queridas. Por isso tudo, e por tanto mais, é que serás sempre aquele calorzinho doce que sentirei no meu coração ao lembrar-me de ti.
A tua gargalhada quando te rias dos meus disparates, da minha maneira de ser, o teu sorriso sempre tão doce quando nos víamos pela manhã ou quando chegavas a casa do trabalho, todas as vezes em que me abraçavas quando eu estava menos bem, de todas as vezes em que nos abraçávamos quando algo corria muito bem um ao outro, a tua voz, os teus insultos (sempre na brincadeira)… insultavas-me tanto às vezes. Vaca, chamavas-me tu. Eras tão engraçado. As vezes todas quando me atendias o telefone sempre da mesma forma: “Amiiigaaaa!!!”.
Que saudades tuas, Palhacito. Tantas. Tu fizeste parte da minha vida desde o início do seu ponto de viragem mais extraordinário. Tudo corria tão bem e eu tinha a sorte acrescida de poder partilhar essa felicidade com alguém tão especial como tu. Sinto-me muito abençoado por ter podido fazer parte da tua vida quando eu estava no meu melhor e assim poder oferecer a ti o melhor que havia em mim.
Havia uma cumplicidade muito enraizada entre nós. Nenhum de nós se atreveria a quebrar essa cumplicidade, essa forma tão forte de sermos amigos um do outro. Éramos muito leais, e protegíamo-nos mutuamente. Eu adorava-te Palhacito. E disse-to repetidas vezes. Foste sempre tão especial que nunca me foi difícil, ou demais dizer-te que te adorava. Muitas vezes vieste em busca do meu abraço, e em todas elas te disse o quão especial és para mim.
Em ti eu encontrava um pilar ao qual me poderia apoiar a qualquer instante. Nunca duvidei da tua dedicação à nossa amizade, nem do teu carinho por mim. Soube sempre que em ti encontraria a qualquer altura um amor que era recíproco e muito próprio, muito nosso. A amizade que sentia por ti era muito única. Eras o meu Palhacito adorado. E és ainda. E serás sempre.
Perder-te é inconsolável. É indescritível. É irreal. Por vezes penso em ti e as memórias são todas tão distantes… enevoadas, apenas segundos isolados de várias situações, misturados todos nuns quantos minutos de confusão, de falta de sentido.
Outras vezes, as memórias de ti são tão fortes, tão presentes, tão reais, que quase oiço de novo a tua voz, oiço de novo a tua gargalhada, sinto de novo o teu abraço… e quando as memórias são assim, enterro-me numa tristeza tão avassaladora. Que desgosto perder-te meu amigo. Que desgosto tão grande nunca mais te ver, nunca mais te poder dar aquele abraço e reafirmar que gosto muito de ti.
Por todas as vezes em que não estive totalmente presente, por todas as vezes em que as minhas palavras te possam ter atingido com um peso mal medido, por todas as vezes em que me tenhas sentido ausente, por todas as vezes em que possa não ter cumprido a cem por cento com a minha dedicação, uma miríade de desculpas te peço. Sabes como sempre foste tão importante para mim.
E por todas as vezes em que eu estava lá, em que me deste um sorriso, em que te sorri de volta e te abracei, por todas as vezes em que vieste ao meu socorro, por todas as vezes em que me deliciaste com a tua companhia, por todos os afectos, todos os apoios, todos os insultos… um obrigado eternamente reconhecido. Obrigado por me teres abrigado em ti e por me permitires acolher em mim esse sentimento tão doce que é o de me ter sentido teu amigo.
Mas escrever sobre ti, agora, tem sido algo que não me sai naturalmente. Sinto uma grande necessidade de o fazer mas quando começo, parece que todas as palavras nascem mudas, distantes, alheias, falsas. Nenhuma delas carrega a massa total da dor que contam. E sinto também que ao escrever sobre ti, não o faço em privado. Sinto que elas devem ser dirigidas não apenas ao recorte do papel mas a tanta gente, a tantas pessoas, a tantos pedaços teus que ficaram cá conosco. E, ao pensar em todas elas, estou inevitavelmente a pensar em ti. Enquanto escrevo, estás aqui comigo e é isso que me faz confusão. Como habituar-me à ideia de escrever para ti, tendo-te aqui comigo, mas falar apenas de uma mágoa provocada pela tua ausência?
Como compreender a dor de te perder?
Parece que ainda no outro dia nos ganhámos um ao outro. Foi o que nos saiu na rifa. E não podia ter saído nada mais valioso. Eu estava a viver em França naquela altura. Foi em Agosto de 2003. Logo no início do mês. Lembro-me que foi um mês de muito calor por toda a Europa, e no Vale do Indre, onde eu estava, faziam 40 graus à sombra. Eu estava doente. Apanhei um virús qualquer que em deixou de cama por uns dias. Sentia frio, naqueles dias quentes, e passava horas debaixo do cobertor a tremer de frio. Lembro-me que a indisposição começava sempre à mesma hora do dia… Por volta das quatro da tarde começava a doer-me a cabeça, ficava tonto, meia hora depois começava a ter frio, ia para a cama enrolar-me nos cobertores e ficava assim. Quase não jantava e só na manhã seguinte é que voltava a sentir-me melhor. E foi nesses bocados em que me sentia melhor que acabei por conhecer virtualmente um novo amigo. Nessa altura iniciámos a nossa troca de emails a falar sobre nós, quem éramos, do que gostávamos, o que queríamos da vida. Passei a ligar-te de vez em quando. E conversávamos pouquinho. As chamadas internacionais eram caras. Mas a maior parte do que íamos descobrindo um acerca do outro foi descoberto através de palavras escritas, por email.
E nós deixámos de saber estar sem que estivéssemos em regular e frequente contacto um com o outro. Entendíamo-nos tão bem! Dizias tantas vezes que só eu é que te compreendia em alguns aspectos. Sim, Palhacito, compreendia-te muito. A tua amizade era-me muito querida e eu encontrava no teu mundo interior cada vez mais razões para te conservar como meu melhor amigo. Rapidamente te tornaste naquele meu grande, especial, adorado e querido amigo. O meu amigalhacito… às vezes pedias para te chamar assim. Gostavas muito quando eu o fazia.
No final daquele ano decidi regressar a Portugal e fui viver para os Açores durante um ano e foi nesse ano, 2004, que acabámos por nos conhecer pessoalmente. Em Agosto. Naquele mês fazia um ano que nos tínhamos conhecido. E desde que voltei aos Açores que nós criámos um hábito que ficou muito enraizado entre nós: o de falarmos ao telefone todos os dias, todos, e várias vezes ao dia. Daquela altura, eu não me recordo de um único dia em que nós não tivéssemos falado um com o outro pelo menos duas ou três vezes.
Falávamos sobre tudo, falávamos sobre nada… de coisas importantes, de coisas desinteressantes, de coisas banais, de coisas feias, de coisas bonitas, de pessoas, lugares, de tempos passados, de sonhos realizados e de outros por realizar. Deixávamo-nos, assim, entrar no mundo um do outro tão completamente, que acabou por não haver nada de um de nós, que não fosse por direito do outro também.
Fui a Lisboa em Agosto e foi então que a nossa amizade ganhou o seu “certificado oficial” de algo com valor imenso. Não me esquecerei nunca do café que tomámos no Central Park na primeira vez que estivemos a poucos metros um do outro. Foi como se aquele momento tivesse validado e confirmado a nossa grande cumplicidade. Nem do nosso jantar na Quinta do Tabaco em que estávamos tão felizes por finalmente estarmos a partilhar momentos nossos. Nem do abraço que me deste à despedida no aeroporto quando regressei a Ponta Delgada. Em todos os teus abraços – incluindo esse – senti que me entregavas por inteiro uma amizade dedicada, sentida, e muito acarinhada.
Em Novembro desse ano vieste tu aos Açores, conhecer uma outra preciosidade minha, a ilha de São Miguel. O valor daqueles dias que passaste cá comigo é incalculável. Não há como verdadeiramente conhecer a felicidade que era poder mostrar a minha ilha ao meu Palhacito. Vivemos momentos tão felizes, tão cúmplices, tão despreocupados. Rimos tanto… falaste tanto mal da chuva que caía quase todos os dias (é Novembro!!!! – dizia-te eu. Estavas à espera de quê?) Lembro-me tão bem de como tantas vezes nós implicávamos um com o outro só mesmo pela felicidade que sentíamos ao fazê-lo. Nunca nos chateámos um com o outro. Nunca nos zangámos um com o outro. Tínhamos um carinho tão grande, e especial, um pelo outro. Permitíamos tanto um ao outro…
No ano seguinte, em Março, fui viver para Lisboa. Arrendámos um apartamento em Linda-a-Velha e os meses seguintes foram sem dúvida dos mais felizes de toda a minha vida. Eu sentia que estava onde deveria estar. Partilhava casa contigo, estava de novo a viver na proximidade de um grande centro urbano, e sentia que a vida corria tão bem, estava tudo tão certo, tão afinado e tão iluminado na minha vida.
“Que outra cidade, Levantada sobre o mar, à beira-rio acabou por se elevar, Entre dois braços de água, Um de sal, outro de nada…” – Adorávamos essa música dos Madredeus. Estávamos os dois a realizar um sonho nosso: viver em Lisboa. E esse sonho que nos era tão desejado, realizámo-lo juntos. Vivemos a felicidade um do outro enquanto ela acontecia. Momentos assim, partes de vida assim, acontecem apenas com pessoas muito especiais e que nos são muito queridas. Por isso tudo, e por tanto mais, é que serás sempre aquele calorzinho doce que sentirei no meu coração ao lembrar-me de ti.
A tua gargalhada quando te rias dos meus disparates, da minha maneira de ser, o teu sorriso sempre tão doce quando nos víamos pela manhã ou quando chegavas a casa do trabalho, todas as vezes em que me abraçavas quando eu estava menos bem, de todas as vezes em que nos abraçávamos quando algo corria muito bem um ao outro, a tua voz, os teus insultos (sempre na brincadeira)… insultavas-me tanto às vezes. Vaca, chamavas-me tu. Eras tão engraçado. As vezes todas quando me atendias o telefone sempre da mesma forma: “Amiiigaaaa!!!”.
Que saudades tuas, Palhacito. Tantas. Tu fizeste parte da minha vida desde o início do seu ponto de viragem mais extraordinário. Tudo corria tão bem e eu tinha a sorte acrescida de poder partilhar essa felicidade com alguém tão especial como tu. Sinto-me muito abençoado por ter podido fazer parte da tua vida quando eu estava no meu melhor e assim poder oferecer a ti o melhor que havia em mim.
Havia uma cumplicidade muito enraizada entre nós. Nenhum de nós se atreveria a quebrar essa cumplicidade, essa forma tão forte de sermos amigos um do outro. Éramos muito leais, e protegíamo-nos mutuamente. Eu adorava-te Palhacito. E disse-to repetidas vezes. Foste sempre tão especial que nunca me foi difícil, ou demais dizer-te que te adorava. Muitas vezes vieste em busca do meu abraço, e em todas elas te disse o quão especial és para mim.
Em ti eu encontrava um pilar ao qual me poderia apoiar a qualquer instante. Nunca duvidei da tua dedicação à nossa amizade, nem do teu carinho por mim. Soube sempre que em ti encontraria a qualquer altura um amor que era recíproco e muito próprio, muito nosso. A amizade que sentia por ti era muito única. Eras o meu Palhacito adorado. E és ainda. E serás sempre.
Perder-te é inconsolável. É indescritível. É irreal. Por vezes penso em ti e as memórias são todas tão distantes… enevoadas, apenas segundos isolados de várias situações, misturados todos nuns quantos minutos de confusão, de falta de sentido.
Outras vezes, as memórias de ti são tão fortes, tão presentes, tão reais, que quase oiço de novo a tua voz, oiço de novo a tua gargalhada, sinto de novo o teu abraço… e quando as memórias são assim, enterro-me numa tristeza tão avassaladora. Que desgosto perder-te meu amigo. Que desgosto tão grande nunca mais te ver, nunca mais te poder dar aquele abraço e reafirmar que gosto muito de ti.
Por todas as vezes em que não estive totalmente presente, por todas as vezes em que as minhas palavras te possam ter atingido com um peso mal medido, por todas as vezes em que me tenhas sentido ausente, por todas as vezes em que possa não ter cumprido a cem por cento com a minha dedicação, uma miríade de desculpas te peço. Sabes como sempre foste tão importante para mim.
E por todas as vezes em que eu estava lá, em que me deste um sorriso, em que te sorri de volta e te abracei, por todas as vezes em que vieste ao meu socorro, por todas as vezes em que me deliciaste com a tua companhia, por todos os afectos, todos os apoios, todos os insultos… um obrigado eternamente reconhecido. Obrigado por me teres abrigado em ti e por me permitires acolher em mim esse sentimento tão doce que é o de me ter sentido teu amigo.
Subscribe to:
Posts (Atom)